Recusei um cargo de Direção


O meu cérebro está cansado, dói-me a cabeça, não tive apetite para almoçar, tenho o estômago às voltas e as costas tensas.

Passei toda a manhã a discutir o assunto com o meu marido, entre prós e contras, repercussões pessoais, profissionais, familiares e financeiras, decidi que a melhor solução seria rejeitar o cargo de Direção que me foi oferecido.

Optei por prescindir de um ordenado que é o dobro do meu atual, com mais responsabilidade, pessoas para gerir, uma entidade pública em crescimento, num setor deveras interessante, em prol da minha sanidade mental.

Mentira, não foi só em prol da minha sanidade mental, foi também em prol dos meus objetivos pessoais e dos nossos objetivos enquanto família. Aceitar a proposta que me foi feita não implicaria apenas uma mudança de emprego, mas uma mudança de casa, uma mudança da escola do meu filho, termos que passar de dois ordenados para apenas um, e num adiamento na prossecução dos nossos objetivos.


Não me interpretem mal, adoro mudanças, aliás, é inata em mim essa necessidade de mudar tudo, o tempo todo, pode ser mudar de hábitos, abraçar nossos desafios, aprender algo novo, testar novas formas de fazer o mesmo ou experimentar algo pela primeira vez. Digo mais, só pelo desafio aceitaria qualquer oportunidade de fazer algo novo por um curto período de tempo.

Apesar disso, aceitar essa promoção implica alterações, não só para mim, mas no estilo de vida do meu marido e do nosso filho, o que significa que o assunto requer uma tomada de decisão mais ponderada.

Há uma ideia pré-concebida na nossa sociedade de que se és um profissional que leva a sério a sua carreira então terás que subir, incondicionalmente, na hierarquia organizacional.

Não concordo com essa premissa.

Devemos dar a nós próprios uma oportunidade concreta de criar a vida que sonhamos ter.

Ora bem, digamos que já atingi, e até superei, os meus objetivos mais audaciosos de há 10 anos, mas, entretanto, eles já se alteraram, não sou mais a pessoa que outrora era, nem tampouco tenho os mesmos valores e motivações de quando acabei a faculdade.

A nível de carreira tenho objetivos até bem claros, e que não passam necessariamente pelo Direito Administrativo, ou pelo Direito em geral, tenho múltiplas áreas de interesse. Ninguém precisa fazer uma única coisa durante toda a vida. Somos multipotenciais, e é isso que nos diferencia, afinal, cargos, empregadores, chefes e funções poderão mudar, mas uma coisa permanece: nós mesmos.

Aceitar uma promoção a 5 horas de comboio de distância de Lisboa implicaria mudanças significativas a vários níveis, além das alterações logísticas inerentes, tive particular consideração pelas questões de stress, trabalho fora de horas, carga de trabalho, frequência de deslocações, interesses e motivações pessoais.

Nos últimos tempos tenho feito um esforço para proteger a minha paz, afastando-me de situações e pessoas tóxicas, porque o meu bem-estar é a minha prioridade. Ser seletiva poupa a minha energia, e isso vale para pessoas, sítios, notícias, interações sociais, assuntos laborais, emails e redes sociais, agora foco naquilo que carrega a minha energia e não no que a absorve. E foram esses fatores que pautaram a minha decisão.


Na utopia que criei na minha cabeça no momento em que me candidatei ao cargo, pensava verdadeiramente que seria uma excelente oportunidade para agarrar com determinação. Mas só agora, quando a decisão se tornou palpável, pude verdadeiramente analisar friamente esta drástica mudança, que não seria só de emprego, mas de vida, algo que atrasaria, inevitavelmente, a concretização dos nossos objetivos a médio e longo prazo.

Note-se que não receio a responsabilidade e compromisso exigido pelo cargo de Direção, aliás, a determinados projetos agarrar-me-ia com unhas e dentes, mas este cargo em específico não era para mim, não estava em consonância com o meu propósito e com os meus valores.

A pessoas mais próximas incentivaram-me a avançar, a fazer essa mudança, porque acreditam que um cargo de Direção é algo que todos desejam, que “ser chefe” é o ideal de sucesso. Como se quanto maior o cargo mais competente eu fosse. Errado!

Mas e em relação a fazer-me feliz? Não faria. Já tive chefes suficientes para perceber que esses são os que menos dormem, os que menos gozam as férias, os que não são capazes de se “desligarem” aos fins de semana, os que estão em constante stress quando ouvem o telemóvel, os que estão demasiado ocupados para ir buscar os filhos à escola, os que não têm tempo para comer bem e dormir 8hs por noite. E no fim da carreira essas pessoas vão dizer o que já ouvi de muitos: “eles não fizeram nada por mim”, “dei o litro e não fui valorizado”, “deixei de passar tempo com os meus filhos para trabalhar”, “perdi 50 anos da minha vida a trabalhar para aqueles cab**** e nem um obrigado disseram”. Não importa a perceção que tiveram daquele emprego, o desfecho é sempre trágico: pessoas que não acompanharam o crescimento dos filhos, que perderam o contacto com os maridos/esposas, que sofreram burn-outs, avc’s, que chegaram à reforma sem saberem o que fizeram à vida “que passou tão rápido”.

Em tempos, achava que o meu emprego definia a pessoa que era, que a organização onde trabalhava deveria fazer parte integrante da descrição que fazia de mim mesma quando me apresentava, que o meu trabalho representava a minha individualidade, que eu era o que eu fazia. Errado novamente!

Os empregos passam, acabam, mudam, transformam-se, mas nós continuamos a existir independentemente deles, a pessoa que somos está sempre aqui, não há emprego ou carreira que defina a complexidade do ser humano.

Sei que pode parecer incongruente, mas na realidade até quero ser chefe, quero exercer um cargo com esse nível de responsabilidade, mas não pelo cargo em sim, não para “mandar” nos outros, não para meter nos formulários e redes sociais “diretora/coordenadora xpto”. Quero esse cargo para ter a oportunidade de trabalhar com o que me inspira e com pessoas genuínas, cujos valores estejam alinhados com os meus, que me proporcione autonomia no poder decisório, que valorize as pessoas, e cuja missão da empresa e o propósito que guia as minhas ações estejam em harmonia.

Pese embora ter desistido do cargo, pude relembrar que tenho imenso potencial, que a resiliência e proatividade são características que fazem parte de mim, e que tenho que ser eu a correr atrás de uma oportunidade que se enquadre no meu objetivo de carreira, e não ficar a esperar que as coisas magicamente aconteçam, afinal só nós mesmos temos o poder para mudar e concretizar cada uma das nossas metas.

Ocupar um cargo de Direção não é e nem será a minha maior conquista, e fico orgulhosa que assim seja, porque o meu sucesso não é medido pelas empresas onde trabalhei ou pelos cargos que ocupei, mas por quem me tornei e o que consegui transformar.


Escrevi esse texto no início deste ano, logo após ter tomado a decisão mais dura da minha carreira.

Não me arrependo de ter recusado o cargo, antes pelo contrário, considero ter sido um ato de coragem gigante, que exigiu uma grande dose de ousadia.

Espero verdadeiramente que mais pessoas tenham coragem para viver a vida que desejam, e não a vida que os outros esperam que vivam.