O que aprendi a ensinar defesa pessoal a crianças


Antes da pandemia tive uma breve, mas emocionante, experiência a dar aulas de defesa pessoal a miúdos dos 7 aos 14 anos. Nas aulas de Krav Maga, além das técnicas, ensinava os mais novos a acreditarem neles mesmos, a conhecerem os limites do próprio corpo e, acima de tudo, a reconhecerem o valor e a capacidade que eles têm física e psicologicamente. Durante esses anos conheci autores e vítimas de bullying, conheci miúdos demasiado ingénuos e outros demasiados experientes para a idade, aprendi tanto com eles como eles comigo, e deixo aqui 5 dessas lições.

1. As crianças são surpreendentes

A magia de jovens mentes a espera de serem moldadas é magnífica! Um dos temas que mais gostava de falar com os meus alunos era sobre desenvolvimento pessoal, explicar-lhes que tinham a liberdade para serem quem quisessem, fazê-los perceber o valor que tinham, fortalecer a identidade única de cada um deles, valorizar a autoestima, a confiança e a coragem, e incutir neles a importância de comemorarem cada pequeno avanço deles e dos colegas, eram importantes momentos dos treinos.

Era um trabalho contínuo, que não se concretizava de um dia para o outro, mas que compensava, porque conseguia ver a evolução em cada um deles, em cada treino tornavam-se miúdos mais confiantes, seguros de si e satisfeitos com a pessoa que se estavam a tornar.

2. O ser humano é capaz de aprender qualquer coisa

O documentário “Three Identical Strangers”, da Netflix, fornece alguns insights muito interessantes sobre a relevância da genética no comportamento do ser humano. O documentário baseia-se num estudo, no mínimo polémico, sobre irmãos gémeos separados quando bebés, o objetivo dos pesquisadores era analisar de que maneira a genética influencia no desenvolvimento de seres humanos que crescem em ambientes socioeconómicos distintos. A história é incrível e fascinante, mas as conclusões são bizarras, aconselho qualquer curioso pelo desenvolvimento humano a assistir.

Mas voltando ao foco deste artigo, ao longo da vida cada um de nós tem predisposição para desenvolver certas competências, a diferentes velocidades, é certo, mas eventualmente todos somos capazes de aprender algo e tornarmo-nos bons nisso, se assim o quisermos, a diferença é que uns poderão ter facilidade em “apanhar” a lógica numa curta aula de escola enquanto que outros poderão ter que rever o mesmo assunto inúmeras vezes até fazer sentido.

Pelo método da observação pude depreender que a genética é responsável por uma parcela dessa inclinação “natural” para determinadas áreas, no entanto, acredito que o meio envolvente é o principal responsável por direcionar os nossos interesses, isto é, os amigos que fazemos, os interesses dos nossos pais, as atividades de fim de semana, os hábitos que cultivamos na infância, a alimentação que temos, os desportos que praticamos, os passeios que fazemos, as conversas que ouvimos, são todos fatores que moldam a criança e, a longo prazo, o adulto que ela se irá tornar.

Posto isto, consoante o tipo de estímulo a que somos sujeitos acabamos por ganhar um maior ou menor gosto por uma área ou atividade, o que influencia o grau de facilidade de aprendizagem. Tudo o que é preciso é que os miúdos sejam sujeitos ao tipo certo de estímulo, através das metodologias mais adequadas (que não é necessariamente igual para todos) e com a intensidade e frequência correta para a faixa etária.

Mais do que uma vez chegaram às minhas aulas crianças assustadas, inseguras e desprovidas de autoestima, pressionadas pelos pais a lá estarem. E a parte mais fascinante era observar como evoluíam, assim que adaptava os exercícios às suas particularidades e as integrava no grupo, floresciam de uma maneira surpreendente. E essa sempre foi a minha parte favorita: empoderar crianças e jovens, de modo a fazê-los perceber que podem ser quem quiserem!

3. Os miúdos podem ser cruéis

Não acredito que as crianças sejam más por natureza, acredito é que se conviverem sistematicamente com pessoas agressivas, mesquinhas e falsas eventualmente adaptam-se. O problema é que esse processo de adaptação conduz a uma mudança nos padrões de comportamento, quer isso dizer que a criança pode sim ser muito cruel com os colegas, com os professores, com os pais e mesmo com transeuntes.

A crueldade a que me refiro é a falta de empatia, é não se importarem que um comportamento ou ação provoque a dor ou o sofrimento de outra pessoa, transformando crianças inocentes em pessoas agressivas e manipuladoras. E o pior, no nosso país temos crianças que sofrem disso desde os 7 anos!! Sete anos!! Ouvi alguns relatos de miúdos e pais em que a violência física e os comentários “inocentes” que culminam em violência psicológica fazem parte do dia-a-dia das escolas.

Apesar disso, acredito que com um acompanhamento correto dos pais, educadores e outros profissionais, faz toda a diferença nesses miúdos, e quanto mais cedo isso acontecer, melhor.


4. A criança tem várias faces

Soa pior do que é, mas deixe-me clarificar com um exemplo simples: uma chefe autoritária pode ser uma mãe doce na presença dos filhos, um funcionário submisso pode ser um marido violento com a família, uma mulher tímida no escritório pode ser extrovertida nos relacionamentos, e assim em diante.

Com a criança acontece o mesmo, isto é, o ser humano tem a capacidade adaptar o seu comportamento aos diferentes ambientes e consoante o papel que desempenha em cada cenário da vida.

Já tive um rapaz muito popular na escola, um verdadeiro líder no seu grupo de amigos, que nas aulas era o mais tímido e gentil de todos os alunos, por outro lado, já tive uma menina que apesar de ser vítima de bullying na escola, nas minhas aulas era uma miúda violenta e pouco amigável com os elementos mais frágeis do grupo.


5. Os ensinamentos ficam para a vida

Nunca tive um aluno que desistisse do Krav Maga por não gostar das aulas (atenção, não estou a ser pretensiosa, até porque já tive alunos que desistiram, poucos, mas existiram), o que quero dizer é que mesmo esses desistentes adoravam as aulas, só não se identificavam com os valores que estava a incutir do grupo.

Todos os miúdos a quem dei aulas adoravam aprender algo novo sobre o seu próprio corpo, adoravam as atividades de grupo, adoravam sentirem-se mais fortes a cada treino que faziam, adoravam a adrenalina das atividades, adoravam sentirem-se vitoriosos porque aperfeiçoaram mais uma técnica, mais um rolamento, mais uma sequência. E mais do que um uppercut ou do que uma defesa a estrangulamento, o que eles aprenderam sei que ficará para a vida, aprenderam do que são capazes de fazer, aprenderam que aquilo que os torna diferentes pode ser uma arma a seu favor, aprenderam que o mundo é deles para ser conquistado e que eles têm o poder sobre as próprias vidas.

Se eu tiver a sorte de um de vocês ler este artigo, um grande beijinho e um abraço muito apertado a todos os meus ex alunos, que hoje já devem ser jovens mulheres e homens, mas que continuam a ocupar um lugar especial no meu coração!